segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

não são meus
o nome dito no escuro
a mão do gozo
a taça pela metade
o dia inteiro
a marca de batom
o verso trêmulo
a calcinha no chão
o quarto
a vista
mas são meus
o tempo de silêncio
o calo na garganta
a dor
a frustração
a confissão
a espera
esse poema
e o fim nos primeiros passos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Depois de 5 anos nessa mesma onda penso que encontrei uma solidão pior que as tardes de domingo chuvoso. 5 Anos da mais que um doutorado, e doutores podem falar com propriedade das coisas. Gastei 5 anos e começo a aceitar que te perdi. Repito tanto a fração desse tempo, para me convencer de que não foi ontem.

Nada é mais feroz que a solidão que me aplaca as 2 da manhã, quando preciso fechar a janela para dormir, e o barulho do arrastar dos ferros berra e ecoa pelo quarto vazio. Sinto também uma vergonha infinita e um medo de acordar os vizinhos. Menos o casal morador do apartamento de cima, que trepou a noite toda e agora deve estar desmaiado dormindo, um na curva do corpo do outro. Penso em dar minha cama para eles, talvez seja menos sexo deles entrando pelo meu quarto a noite, se usassem minha cama firme, sólida e quase cerimoniosa. Menos inveja eu teria, e menos gatilhos para essa minha memória já tão armada.

Esses móveis que estão aqui ainda, só compõe o que falta. Não preenchem o ambiente, mas indicam as ausências. Essa cama que quero dar para os vizinhos, que sustenta meu corpo insone, e que minha agonia não preenche, o criado de madeira escura, que você gostava tanto, que ficava do seu lado do quarto, e ainda hoje tem folhas em branco na primeira gaveta, e a caneta já sem tampa, preparada para ser acionadas na urgência das listas que insistiam em te chegar no silêncio dos primeiros minutos do sono, a luminária que você acendia, mas não sem antes colocar sobre ela aquela sua blusa de dormir, desgastada, cheia da essência do seu corpo, que eu provavelmente já teria tirado de você e jogado pro alto, mirando a quina da cabeceira. Brincadeira nossa antes trepar mais gostoso que os vizinhos de cima. Você tentava com a blusa, improvisar uma cortina e proteger meu sono da luz, inutilmente, porque eu sempre acordava, mesmo que só para vigiar aquela curva linda que suas costas faziam quando você se virava na cama para escrever no criado mudo. Tentei fazer pano de chão dessa camiseta umas 300 vezes nesses últimos anos, mas nunca consegui. Ela ainda dorme debaixo do meu travesseiro surrado. Aquele que você sempre apertava entre as pernas quando dormia sozinha, só para me provocar a nunca mais fazer uma viagem de negócios. Hoje nem com a insônia me arrependo dos minutos de sonho que troquei pelos acordados olhando pra você. Você me via te olhando, pedia desculpas e justificava suas listas me contando que essas coisas nunca te vinham à cabeça entre as prateleiras de do supermercado. Se eu conseguisse abrir essa gaveta, usar essa caneta, talvez não comprasse tanto, e sempre o que sobra, e nunca o que falta. Mas tenho paúra de achar ainda alguma coisa com a sua letra lá, e eu não queria que fosse mais um não, ou outro mal entendido. Desses causados pela expectativa frustrada. Melhor vender esse criado mudo para o vizinho do apartamento da frente.

Tenho feito varias listas para ocupar a mente e lutar contra esse pensar que ontem enquanto fechava as janelas, pisou-me o peito e me fez sufocar. Não uso papel e caneta, mas esse celular novo que comprei depois de joguei o meu na parede, naquele dia de chuva em que você me ligou para dizer que não dormiria em casa, nunca mais. Ontem, aliás, choveu á cântaros de madrugada. Fiquei olhando o jardim do prédio apanhar das pedradas que a chuva trazia. Não sou só eu quem sofre pedradas em dias de chuva. Fiquei solidário a ele, mas nunca soube mexer na terra, então vou deixa-lo morrer até que alguém o salve. Também nunca soube me salvar.

Poderia dormir de janela aberta, mas prefiro fecha-la para reduzir o mundo a esse quarto. Se aqui dentro eu fico pequeno, fora daqui inexisto, e inexistir para si mesmo no meio da rua é coisa muito perigosa, porque na esperança de ficar invisível achamos que podemos também atravessar, e assim, acabo sempre com a cabeça contra um poste qualquer ou contra as placas dos pontos de ônibus, ou pior, contra a realidade de estar só.

Minhas manhãs viraram coleções de protocolos, rotinas e coisas para matar o tempo. Levanto da cama, ligo a TV logo para que as vozes preencham o ambiente. Disseram funcionar e eu obediente com receita de qualquer remédio faço, religiosamente, um copo grande de água e TV ligada num canal qualquer, um programa qualquer que nem vejo. Exceto quando tem aquela menina de sotaque gostoso que ensina receitas malucas com coisas que não sei como usar. Um dia ainda faço alguma coisa num papel manteiga, sempre quis. Soa legal falar que vai colocar no papel manteiga e por para assar. Você também não sabia cozinhar com papel manteiga. 

Tomo banho rápido, e desligo o chuveiro para ensaboar, porque economiza água, que está acabando, e também porque adoro a cobertura branca de sabão pelo corpo. Da um quê de pureza, e talvez eu esteja correndo mesmo atrás de perdão. Desenho coisas com a espuma. 

Faço café ritualisticamente, conto as xícaras de água, as colheres de pó, e ele tem sempre um sabor diferente, todos os dias, um paladar diferente que sai completamente dos meus planos certinhos. Uma deliciosa e quente surpresa de manhã. Tentei decorar o café que fiz naquele primeiro dia em que amanhecemos. Transamos tanto que acordei com o corpo irritado, e passei o dia em roupas bem largas. E precisamos de muito café para acordarmos, mas não tínhamos dormido, a verdade é que felicidade de sonho é a vida acordada, ao pé do ouvido, olho no olho, e um café passado sem pressa de sair. 

Quando saio de casa, boto os fones de ouvido para ajudar a ficar invisível, e dai pelo caminho vou inventando histórias para o que vejo. Até passar pela porta da lotérica, e ver o valor acumulado para o primeiro prêmio. Gasto todo o dinheiro mentalmente várias vezes até que a hora de voltar para casa me tire do voo. Hoje não havia nenhuma premiação especial, nada acumulado para o primeiro prêmio, e nenhuma novidade pelo caminho.

Há 5 anos você foi embora com uma desculpa esfarrapada dada ao telefone em uma noite chuvosa de janeiro. Nunca te perdoei por isso, e nunca me perdoei por não te deixar passar. Acho que quando voltar para casa hoje vou dar a cama para os vizinhos de cima, o criado para o vizinho da frente, a camisa vou queimar, e a esperança vou comer num assado com papel manteiga, e meu corpo vazio, darei para a janela.

domingo, 17 de janeiro de 2016

seu nome é um palíndromo
tão simples que já deve ter sido esgotado
por professores de primário
para explicar as coisas que ficam
seu nome é curto 
mas de teima ecoa
seu nome é rima para um mundo em palavras
seu nome não rima com o meu
mas eu queria que rimasse.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Ficus

clareou à sombra 
revelou o medo
de querer ficar

segunda-feira, 16 de março de 2015

Chá das 5

Moço me vende essa certeza
uma posta de alegria
pra fazer um caldo grosso
da dois molhes de doçura
meio quilo de fantasia
pra comer de colher
quero levar à vista
e pagar à prestação
que dor por inteiro não sai
mando fatiada, bem fininha
pode ser á conta-gotas
lágrimas frescas de hoje cedo
e a fornada de expectativas
posso encomendar?
bolo? quero não, enjoei
muitos já comi, regados
á chá de espera
vou passar um café
talvez o amor passe mais tarde...

quinta-feira, 12 de março de 2015

rasgou a noite 
roubando sono
promessa de saudade
sonhei desperta
iludida à dois
o sol fez morada 
no seu sorrizo

segunda-feira, 9 de março de 2015

Troco rosas por caráter.

Todos os anos quando se aproxima o 08/03 um incômodo crescente sempre me toma “lá vêm as tais rosas da hipocrisia”, e sempre que verbalizava isso, uma censura “que isso menina, você não gosta de delicadeza não.” Desta feita o cansaço. Nada contra Rosas, Margaridas, Hortênsias, Astromélias, ou qualquer outra Flor. Aliás, sempre bem vindas quando junto à mensagem de respeito.
Não quero ganhar flores no dia 08/03, e isso não faz de mim mais ou menos feminina ou mulher. Não preciso de um outro para outorgar o direito a um dia num ano inteiro.
O dia 08/03 não é um dia para o comércio, não é um dia para cartazes de piadas ridículas de estacionamento, salto alto, eletrodoméstico, marca de produtos de higiene, limpeza ou beleza.
Não é um dia para jornais de grande circulação se enxerem de piadas sem graça, e de pessoas disseminarem isso pelo mundo.
Não nos parabenize mais por sermos mulheres, não precisamos de congratulações por isso, principalmente se você não sabe a grandeza da necessidade da luta por direitos. Somos o que somos. O dia 08/03 nasceu sobre muito sangue para você reduzi-lo a uma rosa.
Andei perguntando a umas amigas sobre o que elas queriam dizer para ajudar a algumas pessoas na criação daquele espaço de empatia, de compreensão, relativização que nos ajuda a entender o outro. A tônica era: Em vez de flores em um dia dê respeito a uma mulher o ano todo.
O que ilustraria isso? Seguem as respostas copiadas ipsis litteris:

- Assim como vc não gosta que outro homem pegue sua bunda sem a sua permissão, mulher nenhuma deve ser tocada. - Assim como você não gostaria de passar na frente de uma obra e ser cantado, nós também não gostamos
- Entender que assim como vc não merece ser estuprado quando anda sem camisa, mulher nenhuma mereceria por andar com qualquer roupa.
- Da mesma forma que você não gostaria que um homem roçasse o pênis em você ou até mesmo bater uma punheta enquanto te vê no meio da rua, mulheres se sentem aterrorizadas quando isso acontece a elas.
- Assim como você sai sem camisa quando está calor, eu gosto de sair de short quando está calor também. Então por que eu estou "pedindo pra ser estuprada" e você não? Por que o meu corpo tem que ser constantemente sexualizado e o seu não?
- Se eu saio na rua e ajo como um "pegador", eu sou tachada de "vadia". Por que eu não posso me relacionar com quem quiser sem ser julgada por isso?
- Vc compra a cerveja pela qualidade da mesma ou pela mulher da propaganda?
- Por que ser chama de "mulherzinha" significa fraqueza, e de "machão" (aliás, por que o diminutivo para as mulheres e o aumentativo para os homens?) significa força? Porque obviamente lidar com o machismo todo dia, não poder andar na rua sem ser assediada, trabalhar o mesmo ou até mais e ganhar menos e fazer jornadas duplas de trabalho é um sinal de fraqueza...
- Se eu rejeitar um homem estou fazendo c* doce. Mas, se eu aceitar ficar com ele, estou sendo fácil demais. Afinal, quem controla meu corpo e meus desejos sou eu ou você?
- Assim como você gosta de ser respeitado e valorizado em ambiente de trabalho e estudo por seus esforços, também queremos.
- Por que a sua filhinha não pode fazer futebol, judô ao invés de balé? Por que nós temos que cobrar até das meninas um certo padrão de comportamento só porque elas são do sexo feminino (e olha que ainda tem a questão de gênero!)? Seria bem melhor deixar as mulheres seguirem seus desejos desde pequenas, mas não é o que acontece. Desde pequenas, temos que agir como esperam que ajamos, que sejamos sempre delicadas, puras, e os meninos podem fazer o que bem entenderem isso não parece errado? Até as crianças?
- Sua orientação sexual ou identidade de gênero foi definida pelo brinquedo que você usou na infância?
- Por que as pernas, mamas entre outras partes do corpo são só partes do corpo nos homens e para as mulheres são fontes de excitação para os homens, e não têm função além da sexual nas mulheres? Pode se excitar, mas guarde suas taras pra você, a função das minhas mamas é amamentar e a das minhas pernas andar.
- Assim como vc não gostaria de receber menos do que o do colega que faz a mesma coisa que vc na empresa, mulher nenhuma merece discriminação salarial.
- Relativo a mamães .. existe sempre a questão de as meninas terem q colaborar nas tarefas de casa, enquanto os meninos não tem a mesma obrigação (geralmente). Vc quer ver sua filha escravizada pelo marido ? Comece dando o exemplo em casa, participe igualmente das tarefas de casa e na vida escolar dos filhos, a responsabilidade é compartilhada.
- Eu entendo igualdade de gênero por respeito. E não entendo como um pais presidido por uma mulher ainda seja tão machista. O que falta para nos libertarmos de vez dessa luta e viver em paz entre os sexos? Sinceramente? Regulamentação da mídia. Inadmissível o império da globo, esses mesmos babacas e suas visões limitadas de mundo. Desabafando kkkkkk. Do sbt, record blá. A globeleza é nojento
- As lésbicas não existem para o prazer dos homens. Acho que isso me incomoda muito.O desrespeito de um homem quando vê um casal de meninas...

As mulheres que contribuíram são dos mais variados estados, idades, orientações sexuais.
É incrível que em 2015 isso ainda precise ser ensinado, e debatido...

Guarde sua rosa, e nos dê respeito, acolhida e ouvido.