terça-feira, 5 de agosto de 2014

Voei

Hoje te matei um verso
Te pulei um terço
Hoje até esqueci-me das suas marcas pelo corpo
A identidade tátil do caminho que minha mão lia na sua pele
Da marquinha na sua perna
Era na canela ou no joelho?
Esqueci qual é seu Beatles favorito
Você tem um?
Hoje não sei se você gosta de flores
Se prefere café mais forte
Se conhece Nagisa Oshima
Não quis te chamar pro cinema
Não escrevi carta pra você
Hoje te dedico só esse texto, sobre minha falta de memória
Hoje você me cheira a guardado, a mofo. E nada daquele perfume bom
Aliás, qual é o que você usa mesmo?
Costumava me acelerar o coração só de ouvir nome parecido com o seu
E falhar uma batida quando uma silhueta lembrava a sua
Costumava tentar fazer palavras para não correr o risco de não te tocar com meu poema
Hoje as palavras vêm de enxurrada pra desdizer você.
Você já teve o tamanho que te dei,
O mundo.
Hoje esqueci seu rosto, o gosto e o nome.
Fiz força pra lembrar qual foi mesmo o sabor que me indicou de sorvete, pra experimentar.
Que ironia, o dia está frio.
Eu que sabia de cor e gozava em te decorar
Libertei meus sentidos desses laços
Livre vôo,

Volta depois, que pretendo demorar.  

Gastos

Você hoje me cansou o olhar
A percepção
Esse excesso, esse mar, essa devoção.
Isso arrasta o amor, vaza pelo ladrão como resto
Respiro gelado esse gasto.
Até tentei te defender no horizonte
Expandir pra caber
Afastar pra demorar
Respirar pra entender
Mas você corre rápido demais
E o espaço às vezes não é entre.
Hoje é pequenininho.
Entenda, já foi meu esse papel
O erro nosso protagonizado por outro ricocheteia
Vem pela culatra
Certeiro e letal
É que já incomodava em mim esse roteiro,
Como um corpo recém e mal curado repele
Tanto a enfermidade, quanto o remédio, ainda amargo na garganta
Isso não tem nada a ver com você
São só roupas velhas
Em ti, olhar
padeço
Já ando demais comigo,
Talvez você tenha sim talento pra esse papel, que relutei, mas que repito da coxia
Escondida, atrás da minha cortina.
Você versa coragem.
Perdão,
Reler enredos é me perder nas falas
Sou eu, não é você.
Quer saber?!

Daqui, esse azul até te cai bem

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Caminho, verso

Jogo fora cartas sem abrir
Apago emails sem ler
Desperdício
Despedaço
Queimo tempo e a largada
Só pra repetir
Escolho as músicas pra ouvir depois
Me guardo pra mais tarde
recolho o lixo no canto
do olho, do cisco
o cisto na paisagem
silencio esse grito e engulo
goela abaixo, mando ver
De que vale pensar e saber
Quando o sentido do mundo está exilado no oposto
Aquele outro ponto que não se liga em mais nada
Que não chego pelo caminho
Desobedeço assim o reto
Crio atalho e faço dele o meu real
O caminho do que sinto
Corre longe da estrada

do que sei .

Tamanho, é mundo.

Ah, coração vagabundo
Compra o mundo e eu pago a conta
Reza as lendas como suas
Se acha predestinado ao brilho
Á flor
Alcança o que a retina não acha
Corre pra onde o pé não pisa
Voa onde não se pousa.
Não para, e é infinito.
Não conjuga fim ou fundo.
Teima pra mim: “Não são verbos, e no meu 'be a bá' faltei à lição de encerrar, fui reprovado em retroceder, sou doutorado em começar”
Faz a rima fraca com qualquer gostar
É mar em todo amar
E deixa a dor rimar serena em outras partes
No estômago ou nos olhos, talvez.
“Dor é pra cabeça.” Repete.
Não samba pianinho
Não se cabe e insiste em sair de mim
Dá voltas, cabula mundo.
Não há rédea que o dome.
Possessão dele é tudo, e o pertencer também
E se o olhar dele acha o teu,
pula como nunca,
rende-se como sempre,
deseja sedento
Veste fraque e cartola,
dança valsa, se ajoelha.
E se entrega pra você

domingo, 3 de agosto de 2014

Voa

Vi mil  pedaços seus soltos pela rede
Catei, tentei colar
Pensei: tuas ideias rasgadas e sem nexo
Papel desembrulha

Perdi o teu sentido
o fim, o tom, o tino.
o ponto a se ligar

Eu sei não foi por mim
Desculpe
Ainda assim eu quis juntar

Meu verso
o lado
O colo meu
Um tanto bom
um rumo
Um "seu lugar"

Um outro ponto
um cais no céu
estrelas em um mapa
espelho
Olha.

Catei os meus acordes
meu norte e sul
O silêncio e a espera

Cansei minha renúncia
Fiz minha fuga me sorrir e dançar

Joguei minha toalha, mas não deu.
Espalhei foi só vontade pelo ar

Eu sei não foi por mim
e ainda assim eu quis te dar

Meu verso
o lado
O colo meu
Um tanto bom
um rumo
Um "seu lugar"

Um outro porto
um cais no céu
estrelas em um mapa
espelho
Voa

Um verso
o lado
Um sopro meu
Um vento bom
um rumo
Um "seu lugar"

Um outro porto
um cais no céu
estrelas em um mapa
espelho
Voa

Voa...

Um verso
o lado
O colo meu
Um tanto bom
um rumo
Um "seu lugar"

Um outro porto
um cais no céu
estrelas em um mapa
espelho
Voa

(Karen Simões Corrêa - música para o fim de domingo.)

Palavras

Palavra lançada não volta
Pede
Peca
Carrega consigo a dupla face de ser mensagem e pedir retorno.
Em feito
Em rima
Alívio pretérito que fica em quem a lança,
futura dor quando cai e não alcança
Quando erra mira,
Ressonância, sai de rota.
Quando é insuficiente e apenas, não.
Mas espere.
A culpa nunca é da palavra.
A culpa é sempre da escolha. Da colheita.
Do vão
Dance com as palavras, trate-as com carinho porque elas são eternas, infinitas e sempre lembram
Se oferecem ao teu uso com servidão e obediência natas.
Como quem olha nos olhos e sorri em compreensão à súplica.
Como quem percorre dentro de nós o caminho do sentir e junta em cada canto a letra certa pra dizer
São o brinde à reflexão
São o ouro do entendimento
São a última fronteira.
Palavra é alma aberta

sábado, 2 de agosto de 2014

Depois da porta.

A porta ali, aberta
Seguro um pouco
Tento novamente
Inutilmente
dialogo com o tempo
Pergunto
É repetidamente muda a resposta
Mas dentro em mim algo sussurra
"Pra quê?"
Minha consciência volta
A cabeça gira a perder o rumo
E obrigatoriamente me volto pra frente
Olho novamente a porta
E vejo a falta de sentido em negar o passo
De repente não serve mesmo me prender
Não vale permanecer
A burrice absurda que mora em teimar
Deixar de viver não impede o correr do tempo
O Tic Tac maiúsculo do nosso relógio
E a gente passa
E depois da abertura
No horizonte
É vida por chegar