Ontem reduzi meu passo, minhas urgências, e minha confusão. Tentei não me incomodar com incompletudes, me bastar por uma noite, sem ilusões transitórias das buscas da minha cabeça por um sentido que não me pertence. Apartei-me dos erros, deixei-os pra lá. Já me serviram, já aprendi, não quero remoer, ruminar. Ontem eu toquei Caetano e comi umas notas, cantei Gal rouca nos tons, li a “Ponta de lança” do Lupicínio. E fiquei feliz. Ontem lavei o peso nos meus ombros. Aliás, ontem eu calei meus pensamentos em todas as leituras, debrucei os olhos em Bandeira, Barros, Neruda, Kundera, Espanca, Guimarães Rosa, Llansol, e até Cabral de Melo Neto me distraiu. Ontem eu não procurei Rilke, mas ele entende. Apelei à toda minha cabeceira para me perder nesse espaço, conseguir meu silêncio, e ficar bem, em dúvida. Agora eu ouço Belchior cantar:
“Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém”.
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém”.
Não, não me peça, por favor, não me peça. Não me castre. Eu só tenho a palavra, para me dizer, e para te falar. Meu respeito é arma letal de me castrar. Não me peça na canção, e não me peça na vida. Eu só sei viver por esses nortes bagunçados. Tento a maleabilidade, porque essa rigidez que por vezes me afoga, tem me matado aos poucos. Não carne, não corpo, mas a mente, as ideias, as vontades, iniciativas, meus passos atrás. Ostracismo forçado em tanta regra. Chega de adoecer a mente, quando de nada adianta, quando de tudo atrasa. Quero quebrar os potes, quero bagunçar a prateleira das importâncias, mas sem tanta dor. Quero nãos mais suaves comigo. Quero a mim mais suave comigo. Quero voltar ao vôo solto de peito aberto.
Desentrincheiro-me dos meus muros e essas vagas e ilusórias proteções, sem arrombos. Chega dessa briga. Sem me enganar que pulo janelas, e driblo barreiras. Minha maior defesa é estar aqui, aberta à vida. É não ter defesa. Minha curiosidade e vontade movem, respiram. Os cheiros, as cores, acolho. Meu todo à servir. Vai ser um prazer o encontro, para viver e ver o mundo. Minha mão estendida, nua, aqui fora.
"Enquanto o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar com doçura
Com uma cachaça de rolha
Argumentar com doçura
Com uma cachaça de rolha
E com olhar esquecido
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda rodar
É bom!"
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda rodar
É bom!"
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