Hoje acordei com medo das músicas, mas quando acordamos a última coisa que temos é qualquer certeza. Fui percebendo sentido em meio a
toda a minha irritação. Sim irritação, afinal o que mais esperar de um dia sem
música? É o mesmo que um dia sem café,
irritável ao último grau. Meu medo não era das notas, não era das melodias, nem
arranjos. Não era medo do chiado da palheta de algum sax num solo de jazz, não
temi Coltrane. Não temi o arranhado provocado em mim pela guitarra num solo de
blues, nem as gaitas. Bach não me machucou em nenhum cello, e nem em nenhuma
orquestra, nem Chopin me atingiu no percorrer das teclas de um piano. Não temi
nenhuma das quatro estações de Vivaldi e nenhum solo de violino. Mesmo que chovesse, ou ventasse. Nem mais ríspido,
nem mais puro. Não temi Miles Davis, nem Chet Baker ou qualquer outro trompete.
Fui entender assim, que meu medo vinha da lógica, e do
sentir provocado por todos os versos que cantados entravam pelos meus ouvidos,
e vinham percorrer caminho dentro de mim para me atingir no peito, no estômago,
na garganta, na cabeça.
Entravam só para sair navegando nas lágrimas vertidas involuntariamente,
e teimosamente.
Lembrei que ultimamente tenho usado muito palavras da
família da teimosia, e também outras como medo, rasgar, arranhar, engolir. Tenho
gastado essas coisas, e reparei que tenho brigado tanto, e dentro.
Deve ser por isso esse cansaço. Deve ser por isso que as
palavras têm me bagunçado tanto. Bagunça também tem sido palavra frequente.
Deve-se a isso também meu parco poder de barrar o sentir e a lógica das rimas
das músicas, dentro de mim. Como são eficientes as melodias quando garotas de
entrega dos versos.
Jogam frequentemente minhas barreiras por terra. Imperam principalmente
num dia de Saturno em escorpião em conjunção com Marte; a lua, o sol e Mercúrio
em Virgem; Júpiter e Vênus em leão. Aliás,
sensibilidade é nome em dias como esses e os astros pra mim sempre tiveram muito
mais sentido. Minha irritação, à dificuldade factual, tácita, realidade feroz.
A dificuldade de realidade de entender minhas desobediências, minhas insistências
em desenquadro.
Os astros não cantam. E nem precisam.
As músicas existem
até quando não tocam. As tais frases atingem mesmo quando não escutadas, mesmo
que só na cabeça, só de memória.
Nessas horas queria que o pensamento desafinasse essas ideias,
ou quebrasse a corda antes que o acorde as entregasse.
Meu nome é Karen, hoje é segunda-feira, e eu acordei com medo das músicas.
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