segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Hoje é segunda

Hoje acordei com medo das músicas, mas quando acordamos a última coisa que temos é qualquer certeza. Fui percebendo sentido em meio a toda a minha irritação. Sim irritação, afinal o que mais esperar de um dia sem música?  É o mesmo que um dia sem café, irritável ao último grau. Meu medo não era das notas, não era das melodias, nem arranjos. Não era medo do chiado da palheta de algum sax num solo de jazz, não temi Coltrane. Não temi o arranhado provocado em mim pela guitarra num solo de blues, nem as gaitas. Bach não me machucou em nenhum cello, e nem em nenhuma orquestra, nem Chopin me atingiu no percorrer das teclas de um piano. Não temi nenhuma das quatro estações de Vivaldi e nenhum solo de violino. Mesmo que chovesse, ou ventasse. Nem mais ríspido, nem mais puro. Não temi Miles Davis, nem Chet Baker ou qualquer outro trompete.
Fui entender assim, que meu medo vinha da lógica, e do sentir provocado por todos os versos que cantados entravam pelos meus ouvidos, e vinham percorrer caminho dentro de mim para me atingir no peito, no estômago, na garganta, na cabeça.
Entravam só para sair navegando nas lágrimas vertidas involuntariamente, e teimosamente.
Lembrei que ultimamente tenho usado muito palavras da família da teimosia, e também outras como medo, rasgar, arranhar, engolir. Tenho gastado essas coisas, e reparei que tenho brigado tanto, e dentro.
Deve ser por isso esse cansaço. Deve ser por isso que as palavras têm me bagunçado tanto. Bagunça também tem sido palavra frequente. Deve-se a isso também meu parco poder de barrar o sentir e a lógica das rimas das músicas, dentro de mim. Como são eficientes as melodias quando garotas de entrega dos versos.
Jogam frequentemente minhas barreiras por terra. Imperam principalmente num dia de Saturno em escorpião em conjunção com Marte; a lua, o sol e Mercúrio em Virgem;  Júpiter e Vênus em leão. Aliás, sensibilidade é nome em dias como esses e os astros pra mim sempre tiveram muito mais sentido. Minha irritação, à dificuldade factual, tácita, realidade feroz. A dificuldade de realidade de entender minhas desobediências, minhas insistências em desenquadro.
Os astros não cantam. E nem precisam. 
As músicas existem até quando não tocam. As tais frases atingem mesmo quando não escutadas, mesmo que só na cabeça, só de memória.
Nessas horas queria que o pensamento desafinasse essas ideias, ou quebrasse a corda antes que o acorde as entregasse.

Meu nome é Karen, hoje é segunda-feira, e eu acordei com medo das músicas.

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